Luminárias




PASSEIO SIM

"As calçadas a serviam obrigatoriamente,
como as cores vibrantes dos chafarizes e canteiros,
saltavam para seus olhos virgens pela primeira vez.
E a donzela aproveitava o passeio,
junto com ela vinha meio mundo para a rua
louco por admirá-la com a maldade de um cão."

Caminhar sempre foi uma das minhas alegrias, passear pelas calçadas obviamente não tem nada a ver com o curtir as belezas de uma paisagem campestre, povoada por cavalos, flores e árvores frondosas, nem por isso deixa de ser fascinante, ainda se encontra aqui e ali alguma árvore, alguma flor, pássaros, ainda encontro sobretudo o ser humano. Esse que não temos mais em tão alta conta, mesmo cumprindo uma simplória volta pelo bairro o ser humano inspira preocupações, o semelhante nos aborrece: é o carro estacionado abusivamente na calçada, o vizinho que não põe o cachorro na coleira, os pedintes que insistem para que nós lhe demos alguma solução.

Outras horas o passeio faz maravilhas. Não é difícil perceber que não estamos sós, em qualquer parte há sentimento, há emoção, verdade, é preciso provar de uma doce libertação, esquecer um pouco de si, enxergar  que a vida é um espetáculo tremendo, tão vasto que preenche todos os segundos de nossas vidas com sensações, recuperemos as sensações dos nossos passeios!

Noite dessas voltei de um compromisso para casa a pé, ignorei os apelos de uma amiga que preferia o táxi, o ar-condicionado porque estava quente, viemos em acalorada conversação, papo que se diluiria em poucos minutos se tivéssemos optado pelo táxi. Ganhamos mais uma hora de conversa, talvez fosse mais de um quilômetro!, soube que seu irmão estava doente e que a família se preocupava, mesmo assim ela sorria e eu compreendi seu esforço para ser agradável, para iluminar por algum tempo aquela noite quente. Encontramos uma praça cheia de gente, dedicamos ao momento atenção ainda maior com as bençãos de umas cervejas, a escuridão não nos espantava, antes animava o passeio.

Enfim, foi intenso, foi emocionante, o contrário das jornadas cansadas que enfrentamos nos ônibus, nas filas do supermercado, talvez fôssemos sim um pouco mais livres do que a maioria metida nos horários paralisantes, essa sina que nos aprisiona nas camas e sofás, servindo aos interesses de uma rotina que só obedece internet e televisão. Mas existe uma frase da qual gosto muito: "viva sua liberdade como algo novo", é um truque para curtir o universo à sua volta. Sou quase exatamente como você, muitos podem contestar o modo como gasto meu tempo, gasto por exemplo horas na cama lendo, eu também assisto televisão, também navego na internet, sou como você, por que não?

Minha intenção é destacar a beleza de nossos possíveis passeios, como aquela beleza do poema que abre esta crônica, o cenário urbano dá recados incríveis e pode ser estimulante. Eu também me cobro, galera que me liga!, tento esquecer o barulho das ruas e os seres mal educados, lançar-me como aventureiro, não se enganem com meus preguiçosos nãos, sei bem que lá fora também uma vida me espera. Espera por mim, pelo leitor, pelo mundo todo.


Marco Antonio Martire:  Formado em Comunicação Social pela UFRJ, trabalha como servidor público concursado no TRE-RJ e não esquece de escrever todos os dias.


 Contato: marco.martire@cabanadoleitor.com.br
Site: http://obloguidomarco.blogspot.com.br/


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